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Festa da Padroeira

Por Stella Galvão
Jornalista - stellag@uol.com.br

Todo agosto a cidadezinha se revestia de solenidade. Festa da padroeira era tempo de varrer o pó dos móveis, o canto dos cômodos, limpar o telhado, jogar água pela casa inteira. Os mais abonados tratavam de jogar tinta para todo lado, se apresentando aos outros com a fachada tinindo de nova. Os preparativos no quesito vestuário principiavam meses antes, com intermináveis sessões de escolha do tecido e provas na costureira. A fatiota mais reluzente era guardada com cuidados extremos até o dia da procissão. Mas antes de chegar nesse dia ansiosamente aguardado por quantos tivessem o menor ardor pela imagem da santa, tudo era expectativa e festança.
O parque chegava pelo menos um mês antes, armando a roda gigante, o carrosel e outros brinquedos que corariam diante das modernas montanhas russas. Para a molecada, o momento solene era o da montagem das canoas. Não se tratava de rafting ou pesca no rio local. Canoa era uma versão muito mais atraente desses balancinhos que se acham em qualquer parque urbano. Pois nela cabiam dois e não havia remos. A coisa toda consistia em lançar a canoinha rumo aos céus, até o limite da trava de segurança, perpendicular ao chão. Os mais afoitos embarcavam sozinhos, mandando ver na corda que fazia a canoa singrar ondas, ou melhor, a brisa leve que por acaso soprasse. Mariinha era uma das raras meninas a embarcar, toda prosa, nessa aventura não aquática. Houve casos de fratura de membros vários, mas nenhuma criança de posse das faculdades mentais era capaz de dizer não ao vôo proporcionado pelo inesquecível barquinho de madeira.
No parque também não podia faltar a sombra assustadora da Mulher Macaco. A menina tremia do pé à ponta da cabeça com aquela visão e os berros de quebrar mil taças de vidro barato. Até que um dia, fugindo de um condutor de canoa inconformado com os recordes quebrados por aquela criatura franzina, deparou-se com uma mulher branca, magra e pelada, sem nenhum fio visível. O choque deu-se com a visão de um enorme macacão com cabeça de símio e tufos escuros que quase chegavam ao chão. A mulher se dedicava a limpar a fantasia que lhe garantia o pão de cada dia. A revelação quebrou algo dentro da menina, que saiu dali atordoada, permanecendo reservada por horas. Ela jamais tornaria a confiar no gênero humano, pelo menos não assim, cegamente.
A festa da padroeira era também uma confirmação dos feudos locais de poder. Havia a noite de queima de fogos do prefeito, do juiz, do doutor, do detentor de parcos currais eleitorais, do dono do trabuco mais potente, do armazém de secos e molhados, da única padaria da cidade e assim por diante. As noites eram poucas para tantos poderosos de pequeno calibre, de modo que as homenagens se sucediam na noite, tirando o sono dos mais velhos. Havia ainda os bailes e suas promessas de amores futuramente desfeitos ou confirmados. O ápice de tudo, porém, era a procissão, coisa linda de ver e participar. A santinha à frente, com seu manto azul que reluzia ao cair da tarde, os hinos entoados como que por uma só voz, o ardor do povo todo, as janelas das casas decoradas com flores para saudar Nossa Senhora. Que emocionante participar de um momento como aquele de expressão autêntica da fé, de renovação das esperanças e da vontade mais lúcida de estar vivo. Uma catarse!


PS.: Peço orações pela saúde do meu primo Chico de Nélson, que na noite do último 13 de agosto sofreu um AVC e encontra-se numa UTI em Natal. Confio em Deus que “Cabeção” ainda ficará conosco muitas décadas.

15/08/2008 Publicada por Jesus de Miúdo.


Belo texto Stelinha. É como Moema disse você escreveu com a alma. Obrigada pelos pedidos de orações que você fez pra o meu sobrinho Francisco. Não o chamo mais pelo apelido e sim pelo nome de batismo. Foi promessa. Vc também é minha prima, pois eu era prima legítima de seu avô Hosa. Um santo que Deus o tenha juntamente com sua avó, Heloísa e Eugênio na Pátria Celeste.

25/08/2008 23:30 Maria Honorata Neta mariahono@hotmail.com Axari/Natal-RN

Parabenizo você Stelinha pelo belíssimo texto e aproveito a oportunidade para lhe dizer que, apesar do tempo que separa estas suas lindas lembranças de hoje, pouca coisa mudou: ainda nos preparamos com todo o empenho e amor para a "Festa de Agosto" como a chamamos carinhosamente. Ainda vasculhamos, lavamos, pintamos e arrumamos nossas casas; compramos roupa nova e fazemos os melhores menus. Tudo isto em nome da nossa festa e da nossa querida padroeira. Para quem é de Acari e viveu tudo o que você tão bem descreveu, pouca coisa mudou. Um abraço.

22/08/2008 19:55 REGINA COELI DE ARAÚJO BEZERRA reginababbo@bol.com.br ACARI-RN

Através desta descrição tão perfeita e cheia de sensibilidade,é impossível não voltar ao passado e reviver todos aqueles momentos.Parabéns Stellinha,você escreve com a alma!

18/08/2008 18:13 MARÍLIA MAMEDE GALVÃO CUNHA acucarnectar@ig.com.br CURRAIS NOVOS-RN

Stelinha quanto tempo e parabens pelo belissimo texto. Saudades que tenho de participar dessa linda procissão. Mas aproveito a oportunidade para pedir a todos que conhecem o Chico Rocha que rezem pela sua saúde, soube apenas hoje pela mamãe - D. Rosa, que ele teve um AVC, chorei muito, mas confiando em Deus, sei que lhe devolverá a saúde. Que todos nos reunamos para numa corrente de luz e orações pedir a Nossa Senhora que lhe devolva a Saúde. Meu amigo a vc só lhe desejo força e não deixe de lutar pela vida, ainda temos muito a brigar viu? te amoooooooooooooo.

17/08/2008 18:02 Guia Medeiros magmaraujo@hotmail.com Ro Branco - Acre

Belíssimo texto! Lendo essa nova geração de acarienses jornalistas, temos a confirmação dos talentos nascidos às margens do rio acauã que tiveram oportunidade de se desenvolverem. Parabéns a Stella e aos seus familiares. Obrigada Jesus por nos agraciar com escritos que nos fazem quase chorar de saudade.

15/08/2008 22:03 maria dalva de brito dantas mariadalva@smartsat.com.br recife - pe.

Chico de Nelson, está internado no Hospital Natal Center, vizinho ao PAPI.

15/08/2008 20:17 Aldenira aldenirazevedo@hotmail.com Natal/Acari

Amigo Jesus, não podia deixar de falar algumas palavras que vem à minha mente ao ler este tão completo e retratado texto de autoria da minha irmã Stella por quem tenho enorme admiração, de uma época que vivenciei tudo isso aí no nosso Acari até os meus 21 anos quando deixei a terrinha em busca de outras conquistas em Natal. Tenho orgulho de ser acariense e gosto de valorizar o sentimento do qual faço questão de falar, Acari é e sempre será a minha maior pátria mãe. Obrigado Stella por esse momento especial, obrigado também ao Jesus por fazer colocar tantas emoções em nossas vidas através desse blog. Que N.Sra.Daguia abençõe a todos os seus filhos.

15/08/2008 15:39 sonia maria soniagsan@gmail.com Natal/Rn

Sem dúvida, Stela, a festa de nossa padroeira, assim como em outras paróquias, são momentos que chega ser ritualizado e catártico, agora considerando a dualidade existente entre a religiosidade e o profano, como esse momento é apaixonante, cara prima!

15/08/2008 12:54 Francisco, filho de José Aquilino fan_tero@hotmail.com Parnamirim-RN

Meu caro Jesus: O muito que se disser sobre a importância da matéria intitulada "Festa da Padroeira", que embala o sagrado e o profano, significa pouco, ou quase nada, para justificar a beleza literária do texto da ilustre jornalista Stella Galvão. Foi uma ótima e proveitosa leitura! Um abraço. Francisco Gomes

15/08/2008 12:32 Francisco Gomes fgn_356@hotmail.com Rio Grande do Norte

Pessoal Podem me informar onde Chico está internado? Meu sogro também está na UTI devido ao mesmo problema de saúde.

15/08/2008 11:16 ERLI erlinatal@ig.com.br NATAL-RN

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